O
sepultamento de um dos guardiões da cultura cearense, Manoel Antônio da
Silva, 94, conhecido como “Mestre Bigode”, que se destacou na linguagem da dança
e no manejo do bacamarte, está marcado para esta segunda (14), às 10h, em
Juazeiro do Norte. A informação é do site da Secretaria da Cultura do Estado
(Secult), que em nota de pesar, lamenta a morte (a cauda não foi notificada)
do “Mestre Bigode”, como era conhecido, no sábado (12).
Considerado
um dos mais habilidosos bacamarteiros do Ceará – personagens de folguedo
popular nordestino responsáveis pela abertura das festas com salvas de tiros -
, Manoel Antônio ganhou o título de mestre da cultura popular tradicional ao se
inscrever no Edital Tesouros Vivos de 2004.
Mestre
Bigode começou a dançar o ritmo “maneiro-pau” por volta de 1942, em
Juazeiro do Norte, passando a integrar o grupo de Bacamarteiros Padre Cícero,
criado por ele, há cinco décadas, sendo um dos mais antigos em atividades no
Estado. Nasceu em 4 de julho de 1923, no município de Iguatu, filho do
agricultor José Antônio da Silva e da parteira Maria Luísa da Silva.
Imaginário
O sertão
sempre fez parte do imaginário do menino, que mais tarde tenta reelaborar
a dura realidade enfrentada por seus moradores através da arte. Mestre Bigode
recorreu à dança “maneiro pau”, que reúne precisão, ritmo e
agilidade. Sem saber, contribuía para perpetuar a memória desse
espaço geográfico, daí o reconhecimento da comunidade. Adotou elementos
da estética sertaneja, bem como seus tipos, a exemplo do cangaceiro, em
particular Lampião, que conheceu na infância. Passou a usar parte de
sua indumentária - chapéu de couro e as alpargatas – como uniforme. Em outras
ocasiões, exibia roupas coloridas.
Depois de
passar a infância e parte da vida adulta em Iguatu, aos 39 anos foi
residir em Juazeiro do Norte, ganhando o apelido de “Mestre
Bigode”. Foi quando começou a brincar no grupo de maneiro pau da cidade.
Compondo um grupo de 12 homens, interpretava músicas que faziam
referência a fatos e personalidades que marcaram a história nordestina.
Sua arte foi influenciada diretamente pelas histórias tiradas dos folhetos de
Cordel que ouvia nas feiras da região do Cariri.
Suas
andanças se estenderam também pela feira de Caruaru, em Pernambuco, palco
de grupo de maneiro pau e bacamarteiros. A influência foi
materializada na criação do grupo de bacamarteiros, em Juazeiro do Norte. O
objetivo era animar as aberturas de festas populares com grandes salvas de
tiros. Mas “saíram do circuito cultural em razão do uso de material explosivo,
que passou a ter comercialização restrita”.
Manoel
Antônio foi inscrito no edital Mestres da Cultura 2004 pela Secretaria da
Cultura e Turismo de Juazeiro do Norte, recendo o título de Mestre da Cultura
Popular Tradicional, do Governo do Estado, no mesmo ano. Sempre participou do
Encontro Mestres do Mundo, promovido anualmente pela Secretaria da Cultura do
Estado do Ceará, com o objetivo de mostrar o saber tradicional e valorizar o
artista popular.
