UM RECOMEÇO APÓS 16 ANOS ENCARCERADA PELA FAMÍLIA. Indenização e atendimento psiquiátrico serão procurados para Maria Lúcia. Liberta do cárcere doméstico no começo do mês, ela ainda apresenta dificuldades em falar e retoma hábitos de que foi privada durante 16 anos
byFábio Lemos—0
Indenização e atendimento
psiquiátrico serão procurados para Maria Lúcia. Liberta do cárcere doméstico no
começo do mês, ela ainda apresenta dificuldades em falar e retoma hábitos de
que foi privada durante 16 anos
Após ser mantida desde os 20 anos em condições insalubres num mesmo quarto,
Maria Lúcia de Almeida Braga, agora com 36 anos, recomeça a ter uma vida em
comunidade. Na Serra do Retiro, no município de Uruburetama (a 127 km de
Fortaleza), a casa onde agora é acolhida não é tão distante daquela onde ficou
isolada pela própria família. Tem falado mais nos últimos dias, dizendo “vou
para casa” e se dirigindo ao novo lar, ou repetindo palavrões que estava
acostumada a ouvir. Aos poucos, vai retomando hábitos que lhe foram privados,
como usar o vaso sanitário e ir à calçada.
Desde a última sexta-feira, 24, Lúcia está na casa de Maria de Fátima
Araújo, de 56 anos. Na teoria, são só elas duas na casa. Mas, durante o dia, os
moradores do distrito de Retiro fazem visitas constantes para ajudar com
alimentos, lenha para o fogão ou para ficar com Lúcia enquanto a cuidadora
precisa sair. “A gente faz o que pode e o que está ao nosso alcance. E a gente
precisa ter muita paciência para cuidar dela. É como uma criança”, comparou
Maria de Fátima.
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Antes, Lúcia estava em casa a poucos metros dali, com Teresa Maria, 42, que
trabalha como cuidadora de idosos. “O começo foi difícil. Ela queria comer e ia
colocar a mão dentro da panela de arroz sem saber que estava quente”, relembra.
Correr pelo interior da casa e deixar cascas de fruta no chão também foram
comportamentos dos primeiros dias. Uma convivência que, segundo Teresa, tem
melhorado com os dias.
O resgate de Maria Lúcia foi feito por policiais no último dia 8 após
denúncia de que ela era mantida há seis anos em um quarto sem banheiro. Na
investigação, veio a constatação de que a situação acontecia há 16 anos, quando
Maria Lúcia engravidou e começou a ser isolada — ainda durante a gestação. Ela
teria apresentado problemas psicológicos após o término do primeiro
relacionamento.
Na quarta-feira, 29, o irmão dela, João Almeida Braga, 48, foi preso sob
acusação de cárcere privado e maus-tratos.
O caso está sendo acompanhado pela equipe do Centro de Referência
Especializado de Assistência Social (Creas) do Município em parceria com o
Conselho Tutelar. Ela foi levada ao Creas logo após o resgate, na sede do
Município. E ficou internada no hospital municipal por três dias, até que a
equipe encontrasse lugar para Lúcia na casa de Teresa, conforme a coordenadora
do Creas, Irene Braga.
Excluída do convívio social e carente de afeto, a vítima respondeu ao trauma
retraindo as habilidades de comunicação, relata Nickolas Bastos, psicólogo do
Creas. Na abordagem do caso, o próximo passo é conseguir atendimento
psiquiátrico para ela em Itapipoca, pois o serviço não existe em Uruburetama.
A equipe trabalha para que haja consulta na próxima semana. O transporte
será custeado pelo Município, afirma Irene Braga. Outra providência a ser
tomada é dar entrada para que Lúcia tenha direito ao Benefício de Prestação
Continuada (BPC), auxílio da Previdência Social para idosos e pessoas com
deficiência.
Saiba mais
O caminho da sede de Uruburetama até o povoado, na Serra do Retiro, é de 15
quilômetros. Uma distância que parece bem maior pela repetição das curvas
feitas no calçamento em constante subida. Também conhecido como Estrada dos
Bananais, o trajeto raramente apresenta moradias.
No distrito de Retiro, o sítio onde mora a família de Maria Lúcia é
encontrado após um caminho de difícil acesso saindo da estrada e feito apenas a
pé. Chegar até lá é mais difícil em dias chuvosos. O acesso à comunidade onde
Maria Lúcia foi acolhida é mais adiante, continuando a subida da serra. A
vizinhança é composta de casas, comércios e igreja, em rua pavimentada com
calçamento.