A jornalista cearense Isabel Filgueiras viajou por três continentes para reunir histórias de sobreviventes dos conflitos sírios. Ela narra às vivências em livro-reportagem que será lançado amanhã, no Espaço O POVO de Cultura & Arte.
Em 2014, Fátima Assan teve a casa bombardeada na
Síria. Sobraram apenas escombros e a força para fugir ao lado dos quatro
filhos, da mãe e de outras cinco crianças que precisavam de ajuda. Alcançaram a
fronteira com a Turquia, onde foram socorridos e declarados refugiados pelo
Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). Foram
(sobre)viver na cidadezinha de Beyoglu, em Istambul. Em uma das ruas do local,
enquanto pediam dinheiro na rua, encontraram a então estudante de jornalismo da
Universidade Federal do Ceará (UFC) Isabel Filgueiras, que viajava pesquisando
e reunindo histórias para seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).
Com investimento próprio, mas ainda sem diploma,
sem veículo ou um crachá, ela buscava relatos de sobreviventes dos conflitos
sírios. Queria conhecer aquelas pessoas que conseguiam, de alguma forma,
driblar as agruras de uma guerra com diversas frentes inimigas.
Três anos depois e hoje repórter do O POVO, Isabel
lança amanhã o livro Recortes da Diáspora Síria, no Espaço O POVO de Cultura e
Arte, pelo selo da Editora Dummar. O evento terá bate-papo entre a autora e a
professora de Direito dos Refugiados da UFC, Theresa Rachel Couto. A mediação
será do jornalista Plínio Bortolotti.
Assim como Fátima, todas as mulheres que Isabel
conheceu durante a viagem foram marcantes. E muitas delas têm suas histórias
narradas nas páginas do livro. “Elas me surpreenderam. Estar numa guerra é
difícil, mas é ainda mais complicado ser mulher em meio a um conflito como
esse”, percebe.
“A outra coisa é que eu creio que a situação dos
curdos ainda é a que mais preocupa. Talvez tenha marcado mais por ser
inesperada. A gente sempre acha que estudando e lendo livros sobre o tema vai
estar preparado, mas no campo as coisas são diferentes”, complementa.
Em meio a histórias de refugiados, pesquisas e
relatos escritos em primeira pessoa, Isabel alinha narrativas que desenham o
retrato do desespero emergente dos conflitos, aparentemente distantes de serem
dados por encerrados. A guerra tem rostos, nomes, famílias. E a jornalista traz
estes olhares nas páginas do livro-reportagem.
Os relatos dão um panorama dos percursos traçados
por cidades da Ásia, da Europa e da América do Sul (incluindo Fortaleza). A
ideia inicial era visitar campos de refugiados ou bairros onde eles ficavam no
Líbano, na Jordânia e na Turquia, mas as histórias foram levando a autora por
outros diversos espaços. “Eu estudei bastante para saber como ia encontrar
histórias, mas a graça da vida real é que elas aparecem, e a gente não tem
controle sobre isso. Foi melhor assim”.
Muros sociais
Não existe apenas a forma que Donald Trump
encontrou de construir um muro entre países. Os muros sociais também podem ser
duros quando as políticas de acolhimento não conseguem ser suficientes para dar
a possibilidade de os refugiados recomeçarem suas vidas em outros países.
Segundo dados do Acnur recortados no livro, em
cinco anos de conflito, os sírios já representavam a maior população de
refugiados do mundo, com 4,1 milhões de pessoas fora do país até 2015. Em
seguida, vinha o Afeganistão, com 2,59 milhões de afegãos no exterior, em
consequência de guerras que duram mais de uma década.
“Também há o isolacionismo social, refugiados são
segregados e isso traz muitos problemas”, resume. “Hoje eu entendo melhor essa
matemática dos conflitos, ainda assim, preciso estudar, conversar, pesquisar e,
quem sabe, viajar bem mais”. A autora pondera, contudo que, aos olhos de um
pacifista, a equação dos conflitos nunca irá fechar.
SERVIÇO
Lançamentos Recortes da Diápora Síria
Quando: Hoje, dia 23, às
19 horas
Onde: Espaço O POVO de
Cultura e Arte (Avenida Aguanambi, 282)
Valor do livro: R$ 45
