Além de
EUA e União Europeia, a China também pediu informações sobre o escândalo
revelado pela Operação Carne Fraca, da Polícia Federal, na sexta-feira. Segundo
dados oficiais, 70% das aves consumidas no país asiático vêm do Brasil. Em
entrevista ao GLOBO, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, disse que o
embaixador do Brasil em Pequm, Marcos Caramuru, já prestou esclarecimentos ao
governo chinês.
Blairo,
que se reúne neste domingo com o presidente Michel Temer disse ainda que o
objetivo do governo é atuar com maior rapidez e transparência possível para
reduzir os danos que as irregularidades podem provocar em relação à compra de
carne, sobretudo no exterior. O ministro, no entanto, já admite que algum
prejuízo será inevitável.
O objetivo dessa reunião com o presidente é criar um gabinete de crise?
Montamos um gabinete de crise no ministério da Agricultura e estamos permanentemente ligados a este assunto. Conversei com o presidente hoje, ele me perguntou algumas coisas e decidimos fazer uma reunião amanhã para nivelar a conversa com ele sobre as ações que o ministério está fazendo e outra já com as associações que representam os frigoríficos, os produtores para também alinhar algumas ações com eles em defesa do mercado brasileiro e internacional também.
Quais são
as principais preocupações neste momento?
A maior
preocupação que eu tenho é a perda de mercado no exterior dos nossos produtos e
a perda da garantia ou da confiança do consumidor interno no Brasil.
Além da
Europa e dos EUA, algum outro mercado já demonstrou preocupação?
Eu tenho
conversado com nosso embaixador na China, o embaixador (Marcos) Caramuru, e ele
já prestou esclarecimentos lá. O ministério que cuida da sanidade na China
também nos questionou, pediu informações. Todos muito serenos, acompanhando as
coisas, mas querendo saber exatamente o que está acontecendo no Brasil. Todos
que conversam conosco mostram preocupação, mas ninguém ainda tomou uma decisão
drástica contra o Brasil, mas nós temos que ser muito rápidos e transparentes
na nossa comunicação e estancar esse assunto aonde ele está restrito e checar o
resto dos nossos procedimentos e dar garantia absoluta de que não temos outros
problemas nessa área.
O senhor
acha essas preocupações internacionais podem chegar à produção agrícola?
Não,
realmente não. Porque o que está acontecendo é uma coisa pequena dentro do
contexto que nós temos. Mas nós temos que atuar com urgência para não deixar
isso se alastrar. Não creio que nós tenhamos outros problemas, nosso sistema é
forte, robusto, bem desenhado, é reconhecido mundialmente como um serviço de
boa qualidade. Só que nós tivemos quebra de comportamento de pessoas, pessoas
se corromperam no meio do processo e aí nós não temos muito aonde nos agarrar a
não ser na Justiça. Obviamente se o Ministério tivesse sabido com antecedência,
nós tínhamos tomado as providências, mas não recebemos essas informações desses
servidores que foram corrompidos ou se corromperam no meio do processo.
O senhor
acha possível evitar ainda que haja algum tipo de barreira imposta?
Acho que
prejuízo nós teremos, não sei se no ponto de um embargo total, que eu creio que
não, nós temos como comprovar que temos isso restrito. Agora, você sabe como é
mercado, mercado se ressente de qualquer notícia, por mais boato que seja ele
já se ressente, imagina numa operação aonde a própria Polícia Federal do Brasil
aponta esses problemas. Ainda quero também questionar dentro da Polícia Federal
a amplitude disso, das coisas que foram ditas, se efetivamente temos a
comprovação de pontos ali ditos. Por exemplo, quando se diz que misturou carne
com papelão, não me parece que seja essa a questão, a questão ali está falando
da embalagem de produtos, de bandejas que devem ser utilizadas no processo
daquela parte da industrialização. Então nós vamos ter que agora pegar os
laudos da Polícia Federal, pegar os depoimentos que tem e tecnicamente comparar
se o entendimento do delegado é o mesmo que nós temos olhando da parte técnica
do processo.
O senhor
enviou técnicos ao Paraná para acompanhar essa parte judicial?
Já. Nós
temos gente desde ontem no Paraná acompanhando, tivemos acesso ao inquérito
para estudá-lo com toda tranquilidade para separar aquilo que realmente
aconteceu daquilo que se pensa ou se supõe que aconteceu. porque esse é um
assunto muito grave, é um assunto de interesse nacional, afinal de contas
estamos falando de alguns bilhões de dólares de exportação. É uma coisa muito
grave para o Brasil essa acusação.
O senhor
acha que pode ter havido exagero da Polícia Federal?
Quero
primeiro checar. Também não sei se efetivamente aquilo que fui publicado pelos
jornais e blogs foi dito pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. A
gente precisa checar isso primeiro e recolocar a informação, a narrativa do que
efetivamente está acontecendo.
O senhor
já tem alguma estimativa do impacto que isso pode ter na economia?
Não sei o
tamanho, mas tenho muito medo do tamanho que pode ter se não estancarmos isso
com rapidez e muita transparência. O Brasil é o maior exportador de carnes
suínas ndo mundo, 70% da carne que a China consome de aves é nossa. Um embargo
chinês por um problema desses é uma coisa muito grave. Embora, já levantamos
isso, nenhuma das plantas que foram acusadas são exportadoras para a China. Mas
o mercado reage a boatos, nem sempre á ciência e às coisas claras. Por isso
precisamos ser muito rápidos e transparentes.
Existem
de fato funcionários que estariam trabalhando para empresas e seriam do
ministério?
Não
existe isso, toda a fiscalização é feita por técnicos públicos, não há
possibilidade de termos pessoas privadas cedidos por empresas para fazer esse
controle. Sempre são servidores públicos.
Como o
governo pretende dar segurança para a população brasileira em relação aos
alimentos que ela consome?
A mesma
preocupação em relação ao público externo temos em relação ao interno. Nós
podemos garantir que nossos sistemas são sérios, robustos, que não tem
problema. Nós tivemos alguns problemas nesses apontados por corrupção dos
servidores públicos. O sistema é muito forte, muito rígido. O que temos de fazer
é urgentemente mostrar esse sistema, passar por auditorias esse sistema e
garantir ao consumidor brasileiro que ele não corre nenhum risco, nós temos a
capacidade de garantir que não tem problema.
O senhor
tem acompanhado esse recolhimento de alimentos dos frigoríficos fechados?
Não tenho
ainda esses números. Mas as três plantas que foram suspensas não podem mais
expedir mercadorias e nós temos sim como rastrear os últimos embarques para
onde eles foram. Mas ainda não temos como saber se esses produtos ainda estão
circulando, e então serão retirados do mercado, ou se já foram consumidos.
E qual a
posição do presidente?
Falei com
ele na sexta e hoje (sábado). A preocupação do presidente é comprovar que nosso
sistema é forte, que os casos são pontuais e garantir à população brasileira
que isso não trará problemas a eles. Para mim, esse é um assunto de segurança
nacional, não podemos deixar esse assunto matar a agroindústria brasileira, a
importância que nós temos e o grande trabalho que foi feito para conquistarmos
esse mercado mundial. Muitos concorrentes nossos vão tentar aproveitar a
situação para nos sacrificar nesse mercado muito competitivo, mas nós vamos
trabalhar para não acontecer isso.
O GLOBO
