Levantamento feito pelo Núcleo de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher (Nudem), da Defensoria Pública do Ceará (DPCE), mostra um retrato das vítimas que buscaram atendimento. Das 531 mulheres atendidas de abril a novembro do ano passado, 40,2% tinham entre 26 e 35 anos de idade; 66,5% são pardas, 52,45% solteiras; 32,91% tinham concluído o ensino médio e 40,87% um trabalho remunerado.
As
mulheres também têm outra característica em comum: 39,9% levaram de um a cinco
anos para denunciar as agressões sofridas. Entre as razões para demorarem a
pedir ajuda pra sair da situação de violência — psicológica, em sua maioria —,
estão, principalmente, dependência afetiva (34,24%) e familiar (23,15%).
Compreender
o perfil da mulher que recorre ao amparo da Defensoria Pública ao sofrer algum
tipo de violência doméstica é imprescindível para o Estado melhorar a rede de
assistência e, também, para desmistificar entre a sociedade algumas teses sobre
esse tipo de crime. Por exemplo: tende-se a argumentar que as mulheres mais
violentadas têm baixa escolaridade e são completamente dependentes
financeiramente de seus companheiros.
No caso
de Camila da Silva Almeida, 28, ela tinha renda própria antes de o
ex-companheiro, que era chefe dela numa clínica odontológica, deixar de lhe
pagar pelos serviços de recepcionista após começar a se relacionar com ela. A
necessidade de se livrar do homem veio logo que ela engravidou dele. “Ele
começou a me humilhar, a me deixar trancada em casa e levar a chave”, relata a
mulher, que hoje é casada com outra pessoa e afirma estar bem.
Segundo
Camila, o ex-companheiro chegou a atirá-la sobre uma mesa de vidro, tinha
“crises de histeria” e a chamava de “prostituta de merda, morta de fome e
analfabeta”. “Quando eu era bonita e jovem, ele não demonstrava esse
comportamento”, lamenta.
Camila
denunciou o homem quatro meses depois de ter o filho dos dois, que hoje tem
quatro anos de idade. O boletim de ocorrência foi registrado numa delegacia
comum e depois encaminhado para a Delegacia da Mulher, que, segundo a jovem, a
colocou num acolhimento psicológico. “Foi maravilhoso. Se eu não tivesse tido
todo esse atendimento, não teria conseguido”, admite.
O
desenvolvimento de crianças como o filho de Camila neste contexto de violência
é, para a coordenadora do Nudem, Jeritza Braga, o que compromete as futuras
gerações. “Se eu tenho uma filha e ela cresce num lar onde meu marido me bate e
eu aceito, ela vai crescer achando normal e pode ser uma próxima vítima. Se o
homem cresce num ambiente assim, vai achar que é natural bater na mulher”,
explica a coordenadora.
Perfil
distribuído
Para a
coordenadora do Observatório da Violência contra a Mulher (Observem), Helena
Frota, esse tipo de crime é bem distribuído entre as classes sociais, não sendo
apropriado trabalhar com fatores isolados. Ela cita, por exemplo, que, “na
grande maioria dos casos, as mulheres são as chefes da família, dão dinheiro
para os maridos e assumem que eles é que mantêm as casas”, compartilha.
Assim,
segundo Helena, a dependência financeira e a pouca instrução não são o que faz
com que as mulheres demorem tanto a buscar ajuda. “É algo mais complexo, tanto
que hoje as políticas (públicas) apontam para uma assistência integral com a
ajuda de grupos e terapias, para ela (a mulher) cortar essa dependência
emocional e cultural”, afirma.
Saiba
mais
São cinco
as formas de violência contra a mulher escritos na Lei Maria da Penha: física,
psicológica, sexual, patrimonial e moral.
Dependendo
da agressão sofrida, a mulher tem o direito de solicitar medidas protetivas ao
Governo. Algumas delas são: afastamento do agressor do lar ou do local de
convivência com a vítima, fixação de limite mínimo de distância que o agressor
fica proibido de ultrapassar em relação à vítima, pagamento de pensão
alimentícia etc.
Dos casos
registrados de abril a novembro de 2016 na Defensoria Pública do Ceará, 78,79%
tiveram de ser resolvidos com medidas protetivas.
LUANA
SEVERO
