O Prêmio Camões, o mais
importante da literatura em língua portuguesa, transformou-se ontem num
deprimente espetáculo de um ministro que não sabe seu tamanho nem seu lugar.
Raduan Nassar, mais importante autor brasileiro vivo, recebeu o prêmio e
desancou o governo Michel Temer (PMDB). Ele era a estrela e o motivo de os
convidados estarem ali.
Porém, a ordem tradicional da
cerimônia foi invertida e, por algum motivo, alguém achou que o ministro da
Cultura, Roberto Freire (PPS), deveria ser o último a falar. O discurso de
Nassar contra o governo era previsível. Ficou a impressão de que mudaram a
ordem para permitir a Freire responder. Já seria inadequado, mas poderia ter
sido feito com alguma elegância. O que se viu, todavia, foi degradante. O
ministro discursou debaixo de vaias da plateia e gritos de “fora, Temer”. O
homenageado, de 81 anos, foi chamado por Freire de “histriônico”. Um patrimônio
da cultura brasileira foi ultrajado por um ministro que se mostrou um
desclassificado. Não estava à altura do momento, como bem definiu o poeta
Augusto Massi.
Freire bateu
boca com a plateia. Defendeu que o autor deveria ter recusado o prêmio e
argumentou, em defesa do caráter democrático da gestão Temer, que o Camões
estava sendo entregue a um adversário do governo.
O
ministro confundiu as coisas. Não foi o Poder Executivo brasileiro quem
escolheu o premiado. Foi um júri de literatos de peso. Este ano, pelo Brasil
estavam o poeta Sergio Alcides e a crítica literária Flora Sussekind. E não é
uma comenda do governo brasileiro, apenas, mas instituída em conjunto com
Portugal.
ÉRICO FIRMO O POVO
ÉRICO FIRMO O POVO
