Na madrugada de 25 de novembro de 2025, o influenciador
digital Ruan Carlos da Silva Moraes, mais conhecido como Cearense do Grau, de
18 anos, morreu durante uma intervenção policial no bairro Cágado, em
Maracanaú, na região metropolitana de Fortaleza (CE).
Ruan era popular nas redes sociais. Seus conteúdos
misturavam humor, cotidiano nordestino e, principalmente, manobras radicais de
motocicleta conhecidas como “dar grau”, isto é, empinar a moto. Essas manobras
lhe renderam grande visibilidade: segundo reportagens, ele acumulava milhares a
milhões de seguidores no Instagram e no Kwai.
De acordo com a versão da Polícia Militar do Ceará (PMCE),
a intervenção policial foi motivada por uma denúncia de ameaça feita por
ocupantes de uma motocicleta contra profissionais de imprensa. Ao avistarem o
casal, Ruan pilotando, com uma garota de 16 anos na garupa, os policiais teriam
dado ordem de parada, que não foi obedecida. Começou então uma perseguição.
Ainda conforme a PM, durante a fuga, o influenciador teria
efetuado disparos contra os agentes, que reagiram em legítima defesa. A
perseguição terminou quando a moto colidiu com o meio-fio; com a queda, Ruan
foi atingido pelos disparos e não resistiu. Um revólver calibre .38, com
munições usadas e intactas, foi apreendido no local. A jovem de 16 anos ficou
ferida e foi internada.
Esse episódio não é apenas mais um drama nas
estatísticas. Ele simboliza várias camadas de nossos dilemas sociais atuais:
Juventude em busca de identidade e visibilidade:
Muitos jovens, sem perspectivas estruturadas, encontram nas redes e na “fama
digital” uma válvula de escape: adrenalina, reconhecimento, pertencimento. Mas
nem sempre com segurança ou consciência dos riscos. O “grau” funciona como
metáfora e como prática concreta de risco.
Crise de segurança, violência e controle social:
A dinâmica da intervenção policial, a versão oficial, a versão da família, o
contexto de medo, impunidade ou brutalidade sistêmica: todas essas vertentes
merecem questionamento. Quanto da justiça se perde no confronto, no medo, no
preconceito?
Responsabilidade das redes e da sociedade:
Quando alguém com muitos seguidores faz manobras perigosas, o que há de
responsabilidade coletiva? Até que ponto a sociedade glamoriza comportamentos
de risco? E o que se pode fazer para canalizar essa visibilidade de forma mais
segura, arte, esporte, cultura?
Memória, dor e humanidade. Por trás das manchetes está um
jovem com família, sonhos, história; e a tragédia reacende empatia, perda,
questionamentos. É urgente humanizar esse tipo de relato.
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